Páginas

Postagens

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Comentando o Comentário

No dia 07/01/2010, após publicar a postagem “Perguntas e Respostas: Os Irmãos de Jesus”, recebi do Pe. Mateus, que mantém o site Igreja Ortodoxa no Brasil, o seguinte comentário:

“A tradição que ensina ser os irmãos de Jesus filhos do primeiro casamento de José (o qual ficara viúvo), tem sua fonte no Proto-Evangelho de Tiago, que gozou e goza de muita autoridade no Oriente Cristão, posto que serviu de base para as narrativas de Mateus e Lucas sobre a infância de Jesus. Não entrou para o Cânon Sagrado porque a este Evangelho faltam as narrativas dos ensinamentos de Cristo, principalmente as dos eventos Eucarísticos (pascoais).

“A Virgindade Perpétua da Santíssima Theotokos (Mãe de Deus) não é um dogma, mas uma crença (teologumena) profundamente arraigada tanto no Oriente quanto no Ocidente, crença esta partilhada pelos pais do Reforma Protestante (Lutero, Zuwinglio, Calvino e etc.).

“De fato, uma vida sem relações sexuais entre casados, não só contraria toda a cultura da época, mas a ordem natural da condição humana, mas está em perfeita harmonia com a natureza da Revelação. Note que também é incomum uma Virgem conceber sem intercurso sexual (isto faz do caso de Maria incomum). Sua virgindade perpétua é deduzida do fato de que o seu ventre tornou-se o Santo dos Santos (pois nele habitava Aquele que nem os céus podem conter); tal como a Arca da Aliança que não podia ser tocada, Maria em seu ventre abrigara O Verbo (maior que as tábuas da Lei), o Sacerdote segundo Melquisedeque, que (maior que o sacerdócio Aarônico) e o Pão da Vida (alimento superior ao maná do deserto). Ora, se uma porta de madeira não podia ser violada pelo fato de por ela ter passado o Senhor da glória (Ez. 44:2), quanto mais o útero que se tornou simbiótico ao EU SOU (IHVH)?

“De fato, a Igreja não se depara com um evento comum à biologia humana, mas sim, diante de um mistério Cristológico (que encerra o Divino ao humano e eleva o humano ao Divino); por isto a razão natural não o entende e se lhe parece loucura (1 Cor. 2:14); mas àqueles aos quais fora concedido conhecer os mistérios do Reino de Deus, ou seja, à Igreja (1 Tim. 3:15), tudo o quede [sic] Deus pode ser conhecido, nela se discerne (Ef 3:10,11).

“Atenciosamente,
“Pe. Mateus (Antonio Eça)
“Pe.mateus@igrejaortodoxa.org”

Em primeiro lugar, gostaria de agradecer o comentário feito, pois fez-me aprofundar-me um pouco mais minha pesquisa sobre o assunto; fez-me ler mais e aprender mais. Também aproveito para pedir desculpas ao Pe. Mateus pela demora em moderar o comentário. Tal demora não teve nenhuma má intenção; apenas foi devida pelo tempo que gastei em uma nova pesquisa do assunto.

Em segundo lugar, apesar do tom, não quero ser apologético no estrito sentido da palavra. Quero apenas, em vista do comentário feito, deixar claro sobre que bases sustentei e defendo minha resposta desenvolvida na postagem citada.

Minha resposta se baseou primariamente sobre o que a Bíblia ensina sobre o assunto, não sobre o que a tradição diz. Seguindo o exemplo de Jesus e dos apóstolos, é nas Sagradas Escrituras que se busca a verdade, não fora dela. As Escrituras são superiores à tradição e não devem obscurecer o claro ensinamento dado por Deus, segundo Jesus (Mateus 15:6).

Além disso, ao contrário do que foi alegado, segundo Barbara E. Reid, “[a]mbos [o evangelho de Tomé e o Proto-Evangelho de Tiago] datam aproximadamente da metade do Segundo século. Ambos são claramente mais tardios que os evangelhos canônicos, pois incluem muitas citações deles, expandindo-as e elaborando-as.”[1]

Outrossim, entre os motivos citados para sua (do Proto-Evangelho de Tiago) não inclusão no cânon, razões muito mais profundas do que a não inclusão dos ensinos de Jesus ou dos eventos relativos à Santa Ceia. Falta-lhe também apostolicidade (ter se originado de um apóstolo ou de alguém diretamente ligado a um apóstolo), originalidade (sua autoria é autêntica, não atribuída) e concordância com os demais escritos inspirados.

Poucos eruditos hoje aceitam que Tiago, o irmão do Senhor, seja o verdadeiro autor. Há forte evidência de que esse Tiago em particular tenha morrido como mártir no ano 62 d. C. provavelmente alguém ou algum grupo escreveu o documento em seu nome algum tempo depois. Se o Evangelho de Tiago foi escrito em meados do segundo século depois de Cristo, como geralmente se acredita, não seria possível que Tiago fosse o autor. […] o Evangelho de Tiago carece de status canônico e não pode de maneira alguma ser considerado livre de erros [...].[2]

De acordo com Geisler e Nix, não só este, como outros escritos surgidos na mesma época e em épocas posteriores “evidenciavam uma curiosidade incurável para descobrir mistérios não-revelados nos livros canônicos (e.g., acerca da infância de Jesus).”[3] Ainda, segundo Derivan, o Evangelho de Tiago “dificilmente merece ser chamado de evangelho. É uma antiga narrativa primariamente falando-nos sobre Maria.” [4] Ou seja, o centro desse suposto evangelho não é a magnífica pessoa de Cristo, e sim Maria, fazendo com que o leitor desvie, assim, seus olhos dAquele que merece realmente atenção.

O fato de ter sido usada a palavra dogma se deve a vários sites na internet, inclusive a maior parte deles católicos, se referirem a este ensino por tal palavra. E o fato de os reformadores citados sustentarem tal ensino não é indicativo de que se deva fazer o mesmo. É claro que os desenvolvimentos teológicos providos por tais teólogos devem ser levados em consideração, mas eles o são sob o prisma da Bíblia. É ela que tem a palavra final. Só ela e Deus são infalíveis. Tudo deve ser avaliado sob seu prisma, e não acima dele (João 5:29).

A Bíblia claramente atesta a virgindade de Maria até a concepção de Jesus (Lucas 1:27). Daí em diante, não temos nenhuma base bíblica para atestar que seu corpo não mudou durante a gestação de Jesus, durante o parto e que ela não tenha vivido um relacionamento marital saudável com seu, agora, esposo José (Mateus 1:16). Segundo Mateus, José não a conheceu até que Jesus nascesse (Mateus 1:25). Claramente, o evangelista coloca um limite para a atitude de José. Nada mais é dito sobre o assunto, fazendo com que a conclusão lógica do verso seja a de que, após o nascimento de Jesus, José e Maria foram um casal como qualquer outro. [5]

As deduções feitas na postagem sobre o estado de Maria após o nascimento de Jesus se baseiam no valor explícito das palavras usadas no texto bíblico que se referem ao assunto. Nenhuma tentativa foi feita no sentido de usar algum tipo de silogismo ou lógica para negar a perpétua virgindade de Maria, como, aparentemente, é o caso do comentário feito. Não é necessário supor que assim como as coisas ocorreram com a arca da aliança ou com o portão do santuário tal se deu com o corpo de Maria. Se todos os lugares por onde Jesus passou ou onde habitou fossem lacrados para sempre, Ele teria ido apenas uma vez para Jerusalém ou para o santuário, e após isso, ninguém mais poderia acessar tais lugares. A lógica da suposição exige que tal conclusão seja também levada em conta, e mostra que a suposição, portanto, não é tão lógica assim.

Além disso, o fato de José manter seu relacionamento marital com Maria em todos os níveis não tira de Maria sua pureza. O Apóstolo declara que o leito sem mácula deve ser honrado (Hebreus 13:4). O casamento, e por conseqüência, o sexo, é visto como uma bênção em toda a Bíblia, não como uma maldição ou algo que macule o ser humano. A virgindade, por si só, não é uma virtude, mas um estado. É claro que a Bíblia provê ampla base escriturística para a abstenção sexual antes do casamento. Mas é possível uma pessoa ser fisicamente casta e ao mesmo tempo ter a mente completamente depravada. Pessoas casadas, que se mantém uma para outra, são tão puras e imaculadas quanto os jovens solteiros que se protegem até o altar.

Por fim, apesar de a igreja ser a depositária dos oráculos de Deus, ela não é o prisma através do qual as Escrituras devem ser lidas. Ela é a defensora, a despenseira, não a intérprete infalível da Bíblia. A Bíblia sempre estará acima da igreja e não o contrário. É a Bíblia que mantém a pureza doutrinária e a piedade prática da igreja, não o contrário. A igreja surgiu para perpetuar os ensinos bíblicos, não para alterá-los ou impor-lhes idéias estranhas.

[1] Reid, Barbara E. "The Rest of the Story: The Apocryphal Infancy Narratives." Bible Today 47, no. 3 (2009): 161.

[2] Derivan, Albert T. "The Gospel of James: Heresy or Honored Tradition?" Bible Today 46, no. 3 (2008): 174, 176.

[3] Geisler, Norman e William Nix. Introdução Bíblica: Como a Bíblia Chegou Até Nós. Traduzido por Oswaldo Ramos. São Paulo: Editora Vida, 2006, 112.

[4] Derivan, Albert T, “The Gospel of James,” 171.

[5] Para uma discussão ampla sobre a visão bíblica concernente à “teoria” (assim chamada pelo autor do artigo) da perpétua virgindade de Maria, leia-se Benko, Stephen. "The Perpetual Virginity of the Mother of Jesus." Lutheran Quarterly 16, no. 2 (1964): 147-63.

1 comentários:

Padre Mateus disse...

Caro Sr. Clacir,

Obrigado pela publicação do comentário e abertura para o diálogo.

Quero, também, parabenizá-lo pela publicação do ícone do Batismo do Senhor Jesus Cristo, nosso Deus e Salvador.

Ao ler o seu “Comentando o Comentário”, apesar do tempo escasso, me dediquei a apreciar os argumentos que o senhor tomou como base de suas posições; mas, o meu texto ficou excessivamente grande e, então, me dediquei a sintetizá-lo (o que não foi fácil). Mesmo assim, o texto ficou longo para o espaço que disponho, por isto, decidi publicá-lo no Observatório Ortodoxo. Caso o senhor ou algum dos seus leitores tenha interesse em ler a minha tréplica, é só acessar.

Aguardo sua visita no Observatório Ortodoxo.

Atenciosamente,

Pe. Mateus (Antonio Eça)

Postar um comentário

Related Posts with Thumbnails