Postagens

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Em Casa ou numa Hospedaria: Onde, Afinal, Nasceu Jesus?

Antes de ler as próximas linhas e sem ler qualquer parte da Bíblia, pare e pense: quando você imagina o nascimento de Jesus, qual é o ambiente? Agora, lei Lucas 2:1-7 (abaixo). Será que, como eu, você não completou com a imaginação (ou com a tradição) vários detalhes que não estão no texto?

1 Naqueles dias, foi publicado um decreto de César Augusto, convocando toda a população do império para recensear-se.
2 Este, o primeiro recenseamento, foi feito quando Quirino era governador da Síria.
3 Todos iam alistar-se, cada um à sua própria cidade.
4 José também subiu da Galiléia, da cidade de Nazaré, para a Judéia, à cidade de Davi, chamada Belém, por ser ele da casa e família de Davi,
5 a fim de alistar-se com Maria, sua esposa, que estava grávida.
6 Estando eles ali, aconteceu completarem-se-lhe os dias,
7 e ela deu à luz o seu filho primogênito, enfaixou-o e o deitou numa manjedoura, porque não havia lugar para eles na hospedaria.[1]

Recentemente, através do blog da Logos, li um artigo muito interessante da Bible Study Magazine, revista que aborda tópicos e ferramentas sobre o estudo da Bíblia, principalmente o Logos Bible Software. A revista é bimestral e na última edição (nov-dez) apareceu o artigo “Away in a Manger, but Not in a Barn”, de Gary A. Byers (leia o artigo na íntegra).[2] Não concordo com tudo o que o artigo diz, principalmente algumas conclusões sobre o significado do ambiente no qual Jesus nasceu. Gostaria, porém, de compartilhar algumas coisas que descobri com o artigo e outros materiais que li (motivados pelas discussões sugeridas no texto) para que nós possamos repensar o ambiente do nascimento de Jesus.

Uma Falsa Acusação

Muitas vezes, nos programas de Natal nas igrejas, se encena a história do nascimento de Jesus. Lembro-me de ter, eu mesmo, participado de uma peça assim. O enredo da encenação era de que o dono de uma hospedaria não quis dar lugar para Jesus em seus aposentos e mandou-os para o estábulo para dormir com os animais. Enquanto isso, seu filho, que era pastor de ovelhas, recebe a mensagem dos anjos e corre para contar a sua família sobre o nascimento do Messias. E qual não é a surpresa daquele hospedeiro ao descobrir que a tão esperada Criança nascera no estábulo de sua hospedaria.

Contudo, se atentarmos para o relato de Lucas (que é o único que conta esta parte da história) vemos que não existe tal personagem, o dono da hospedaria. Não há, inclusive, nenhum registro de uma suposta conversa entre eles. A única coisa que é dita é que “não havia lugar para eles na hospedaria” (Lucas 2:7).

Portanto, a primeira coisa que precisamos fazer é nos desculparmos com os hospedeiros da Palestina. Por anos nós os acusamos de serem mesquinhos e darem o pior lugar para que Maria e José se acomodassem. Inclusive, o Comentário Bíblico Adventista diz que não havia lugar “simplesmente porque a hospedaria já estava cheia de convidados. Nenhum pensamento de não-hospitalidade da parte do hospedeiro é implicado.”[3]

Um Lugar Diferente

No começo dessa postagem, quando pedi que você imaginasse a cena do nascimento de Jesus, veio à sua mente a imagem de um estábulo, cheio de bois, jumentos e ovelhas, entre os quais Maria deu a luz? A maioria das pessoas tem essa imagem. Fomos acostumados a ver nos presépios e figuras a representação de um estábulo. E, juntamente com a figura do malvado hospedeiro, vemos este estábulo longe da hospedaria, José e Maria cercados de animais e completamente sozinhos no mundo.

Por que é essa a imagem que nos vem a mente? Não é por causa de alguma menção do texto, mas pela proeminência de uma palavra: manjedoura. E, como diz Byers em seu artigo, pra nossa mente ocidental, o lugar da manjedoura é no estábulo.[4] Mas não era necessariamente assim no 1 séc. a. C. Segundo o TDNT, a maior parte das manjedouras (e dos animais) ficava dentro de casa, principalmente a noite. As manjedouras, muitas vezes, eram escavadas na rocha, mas estavam dentro do espaço onde a família vivia.[5] Normalmente, as casas possuíam dois pavimentos. O térreo era utilizado durante o dia para várias atividades; os quartos, porém, ficavam no andar superior. Durante a noite, animais feridos e/ou animais de maior valor eram alojados nesse pavimento inferior. Até mesmo, em algumas noites frias, era possível dormir com os animais para poder se aquecer.

Além disso, por que insistimos que Jesus estava numa hospedaria? Em Lucas 2:7, a palavra traduzida por hospedaria é κατάλυμα (katalyma). Esta palavra ocorre em apenas outros dois lugares no Novo Testamento (Marcos 14:14; Lucas 21:11), mas traduzida por aposento. E, notem: esta é a palavra para o que nós chamamos de cenáculo, o lugar da Última Ceia. Assim, κατάλυμα se refere ao andar superior de uma casa, onde se toma uma refeição ou onde se dorme.

Se Lucas estivesse se referindo a uma hospedaria, ele saberia como chamá-la devidamente, como ele realmente o fez ao contar a parábola do Bom Samaritano (Lucas 10:25-37). Lucas teria empregado a palavra πανδοχεῖον (pandocheion) como em Lucas 10:34. Inclusive, ao falar desse lugar, ele cita o πανδοχεύς (pandocheus), o hospedeiro (Lucas 10:35).

Um Fato Notável

O que toda essa discussão pode acrescentar à nossa compreensão do nascimento de Jesus? Em primeiro lugar, deveria nos alertar quanto a não impor sobre as Escrituras imagens preconcebidas ou impostas pela tradição. A verdade sempre é melhor e sempre acrescenta mais à nossa vida espiritual do que algo deturpado ao longo dos anos.

Byers, pelas considerações acima, sugere que Jesus, ao invés de ter nascido numa hospedaria, tenha nascido numa casa, muito provavelmente entre sua família que morava em Belém. Assim, o fato de não haver lugar para Maria e José junto com os seus familiares no andar superior da casa reforça o pensamento de que nem mesmo sua própria família reconheceu o extraordinário acontecimento que ocorria.

Normalmente, citamos a falta de discernimento espiritual dos líderes de Israel que não puderam se aperceber do tempo em que viviam. Com a abordagem de Byers também podemos ver que nem a família próxima de Jesus teve tal discernimento, a começar por seu nascimento.

Que, ao contrário da família de Jesus, nossa família possa estar atenta à presença de Jesus, não apenas no Natal, mas em todos os momentos da vida. Apesar de batido, vale a pena lembrar o antigo refrão: “que Jesus nasça, mais uma vez, em seu coração.” Feliz Natal!

[1] Sociedade Bíblica do Brasil, Almeida Revista e Atualizada (Sociedade Bíblica do Brasil, 1993; 2005), Lc 2:1-7.

[2] Byers, Gary A. "Away in a Manger, but Not in a Barn: The Nativity Like You`ve Never Seen It Before." Bible Study Magazine 1, no. 4 (2009): 44-46.

[3] The Seventh-day Adventist Bible Commentary. Editado por Nichol, Francis D. Hagerstown: Review and Herald Publishing Association, 1978, 5:698.

[4] Byers, “Away in a Manger,” 45.

[5] Theological Dictionary of the New Testament. Editado por Kittel, Gerhard e Gerhard Friedrich. Grand Rapids, MI: Wm. B. Eerdmans Publishing Co., 1976, 9:52.

1 comentários:

Bruno Ribeiro disse...

Very Good texto pastor!

Agora, tem uma tradição do Séc. II que afirma que a 'katalyma' ficava dentro de uma gruta. Justino diz:

"Na hora do nascimento do Menino em Belém, por não haver onde hospedar-se nesse vilarejo, José encontrou refúgio numa gruta próxima ao povoado e, enquanto se encontrava ali, Maria deu à luz o Cristo e o depôs numa manjedoura, onde os Magos, vindos da Arábia, O encontraram".

Se é verdadeira ou não, sei lá. Mas que é uma tradição antiga (citada inclusive por outros pais da igreja diferentes), isso é. Talvez daí tenha surgido as referências do Natal que temos como 'não há lugar', 'animais', etc.

Postar um comentário

Related Posts with Thumbnails