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domingo, 1 de março de 2009

Lençóis e Lenço

Sei que para o pesquisador assíduo, interessado e reverente, a Palavra de Deus sempre trará novos tesouros e novas preciosidades virão à tona para alimentar e nutrir o Seu povo. Contudo, algumas vezes, mesmo o estudante mais bem intencionado pode cair na armadilha de interpretar um texto incorretamente e extrair dele lições ou temas os quais absolutamente ele não advoga ou cobre.

Esse me parece ser o caso de uma explicação/aplicação feita sobre o texto de João 20:7, que fala sobre a disposição das vestes mortuárias de Jesus após Sua ressurreição, a qual li recentemente. O texto bíblico assim reza (segundo a Almeida Revista e Atualizada): “e o lenço que estivera sobre a cabeça de Jesus, e que não estava com os lençóis, mas deixado num lugar à parte.”

Segundo a interpretação dada, os lençóis que envolveram o corpo de Cristo estavam jogados no chão, enquanto o lenço que cobria Sua cabeça estava devidamente dobrado em outro lugar. Tal disposição teria um significado especial dentro da tradição judaica. De acordo com a discussão feita, antes de uma refeição, o servo colocava a mesa para seu senhor com todas as coisas em ordem. Então, o senhor vinha, se assentava à mesa e iniciava a refeição, enquanto o servo ficava à parte, sem ser visto. Se o senhor terminava de comer e estava satisfeito, ele amassava o quardanapo/lenço, jogava-o sobre a mesa e saía, indicando ao servo que poderia retirar a mesa. A mensagem enviada era: terminei meu trabalho.

Contudo, se o senhor se levantasse e saísse deixando, porém, o guardanapo dobrado, isso era sinal para que o servo ainda não retirasse a mesa. A mensagem enviada era: voltarei para terminar meu trabalho. Assim, o fato do lenço que cobria a cabeça de Cristo estar dobrado significaria, veladamente, um reforço a Sua promessa de voltar pela segunda vez. Seria essa uma possível lição espiritual advinda do texto sagrado? Creio não ser esse o caso.

Por mais bonita que tal interpretação possa soar, ela não se coaduna com o contexto da passagem, principalmente com algumas suposições extraídas, talvez, do “silêncio” sobre a disposição dos lençóis que envolviam o corpo do Salvador em contraposição ao lenço que lhe cobria a cabeça. Gostaria de analisar algumas palavras-chave que, talvez, elucidem para nós o real sentido desta menção de João às vestes mortuárias de Jesus, a qual o Santo Espírito o inspirou a incluir no seu evangelho.

Entendendo o Texto

Para entendermos melhor o contexto da passagem, leiamos João 20, desde o verso 3 até o verso 10 [1]:

3 Saiu, pois, Pedro e o outro discípulo e foram ao sepulcro.

4 Ambos corriam juntos, mas o outro discípulo correu mais depressa do que Pedro e chegou primeiro ao sepulcro;

5 e, abaixando-se, viu os lençóis de linho; todavia, não entrou.

6 Então, Simão Pedro, seguindo-o, chegou e entrou no sepulcro. Ele também viu os lençóis,

7 e o lenço que estivera sobre a cabeça de Jesus, e que não estava com os lençóis, mas deixado num lugar à parte.

8 Então, entrou também o outro discípulo, que chegara primeiro ao sepulcro, e viu, e creu.

9 Pois ainda não tinham compreendido a Escritura, que era necessário ressuscitar ele dentre os mortos.

10 E voltaram os discípulos outra vez para casa.

O contexto da passagem é a corrida de Pedro e João ao túmulo onde o corpo de Cristo houvera sido depositado. João, sendo mais jovem, chegou primeiro, viu os lençóis e parou à porta do sepulcro (vv. 4 e 5). Pedro, mais velho, chegou depois, viu também os lençóis, mas avançou para dentro do recinto (vv. 6 e 7). Depois de algum tempo, João também entrou, viu as mesmas coisas que Pedro, e creu que Jesus ressucitara (v. 8).

Não sei dizer o porquê disso, mas a ARA omite uma palavra do verso 6 e do verso 7. No verso 6, é dito que ele [Pedro] “também viu os lençóis.” Em grego, a frase diz literalmente: “e viu os lençóis colocados” (καὶ θεωρεῖ τὰ ὀθόνια κείμενα). Neste caso, a expressão τὰ ὀθόνια κείμενα (ta othonia keimena) diz que os lençóis estavam dispostos, colocados, não jogados. Inclusive, segundo o Analytical Lexicon of the Greek New Testament, o verbo κείμαι (keimai), que na expressão aparece no particípio presente passivo plural acusativo neutro (em concordância com e qualificando τὰ ὀθόνια), significa, literalmente, o resultado de colocar algo em algum lugar, com ênfase no sentido espacial [2]. Em outras palavras, κείμενα significa colocados espacialmente, dispostos. Ainda, segundo Lidell, o verbo κείμαι, originalmente, significa deitar esticado, reforçando o sentido de que os lençóis estavam dispostos, organizados, esticados e não jogados [3].

No verso 7, é dito que o lenço (σουδάριον) “não estava com os lençóis.” Em grego, a frase diz literalmente: “não com os lençóis colocado” (οὐ μετὰ τῶν ὀθονίῶν κείμενον). Nesse caso κείμενον (keimenon) se refere à σουδάριον (soudarion), ambos no neutro singular, e não à τῶν ὀθονίῶν (tōn othoniōn), genitivo plural. O que está sendo dito é que ao invés de estar colocado espacialmente, o lenço está ἐντετυλιγμένον (entetyligmenon), dobrado, em outro lugar. Assim, João está contrapondo o lugar onde os lençóis e o lenço estão, mais do que a sua disposição. Enquanto os lençóis estão dispostos, organizados de um lado, o lenço está em outro lugar dobrado. Apesar de não podermos, taxativamente, afirmar, biblicamente, que os lençóis estavam dobrados, podemos com segurança afirmar que eles estavam, no mínimo, organizados e não jogados.

Assim sendo, parece temerário julgar a interpretação dada anteriormente como válida. Além de extrair do texto uma informação que lá não se encontra (o suposto fato de os lençóis estarem jogados enquanto o lenço estava dobrado), o contexto não suporta tal explicação. Se João tivesse dado ênfase à esse detalhe no contexto de uma refeição, como a Santa Ceia por exemplo, tal aplicação teria sua validade. Mas o texto trata da ressurreição, de uma tumba, das vestes mortuárias de alguém, e não de uma refeição.

Existem duas lições espirituais que podem ser extraídas deste detalhe dos lençóis e dos lenços dado por João, e, é claro, não devem ser as únicas. A primeira vem do comentário de Ellen G. White sobre o texto [4]: “Fora o próprio Cristo que colocara com tanto cuidado as roupas com que O sepultaram [...]. Enquanto o anjo do Céu removeu a pedra, o outro entrou no sepulcro e desembaraçou o corpo de Jesus de seu invólucro. Foram, porém, as próprias mãos do Salvador que dobraram cada peça, pondo-as em seu lugar. Ao Seu olhar, que guia semelhantemente a estrela e o átomo, nada há sem importância. Ordem e perfeição se manifestam em toda a Sua obra.” [5]

A segunda lição é que, o fato das vestes mortuárias de Cristo estarem organizadamente dispostas atesta sua ressurreição, não a história do suposto roubo do seu corpo da tumba. Se se tratasse de um roubo, os ladrões não teriam se importado de organizar suas vestes. Isso seria perda de tempo. Contudo, as vestes de Cristo cuidadosamente dispostas sob a pedra onde jazera Seu corpo demonstra a realidade de Sua ressurreição corpórea e nos dá a certeza de Sua vitória sobre a morte.

Conclusão

Como afirmei no inicio dessa postagem, sempre que nos dedicamos ao estudo das Sagradas Escrituras, novos lampejos e novas verdades podem e devem ser o resultado de nossos esforços. Porém, precisamos ser escrupulosos com nossas conclusões; mais ainda, com nossos métodos de interpretação.

Cristo foi explícito quanto à realidade de Sua segunda vinda: na verdade, Ele foi explícito sobre a maior parte das coisas. Apenas para citar uma de Suas muitas referências a esse evento, lembremo-nos de Sua promessa em João 14:1-3: “Não se turbe o vosso coração; credes em Deus, crede também em mim. Na casa de meu Pai há muitas moradas. Se assim não fora, eu vo-lo teria dito. Pois vou preparar-vos lugar. E, quando eu for e vos preparar lugar, voltarei e vos receberei para mim mesmo, para que, onde eu estou, estejais vós também.

[1] Sociedade Bíblica do Brasil, Almeida Revista e Atualizada (Sociedade Bíblica do Brasil, 1993; 2005), Jo 20:3-10.

[2] Timothy Friberg et al., vol. 4, Analytical Lexicon of the Greek New Testament (Baker's Greek New Testament Library, Grand Rapids, Mich.: Baker Books, 2000), 227.

[3] H.G. Liddell, A Lexicon : Abridged from Liddell and Scott's Greek-English Lexicon (Oak Harbor, WA: Logos Research Systems, Inc., 1996), 425.

[4] Como estudante da Bíblia e cristão adventista do sétimo dia, creio na continuidade dos dons espirituais na Igreja até a volta de Jesus Cristo. Creio que um destes dons é o dom de profecia e creio que ele foi dado à igreja remanescente como sinal distintivo. Por isso, estou incluindo o comentário da escritora Ellen G. White, o que, de maneira alguma, vai de encontro às informações extraídas primariamente do texto canônico.

[5] Ellen G. White, O Desejado de Todas as Nações, trad. Isolina A. Waldvogel, 22 ed. (Tatuí: Casa Publicadora Brasileira, 2004), 789.

12 comentários:

Daniella disse...

Gosto muito do seu blog e te escolhi para receber um selo.
Clique aqui: http://daniellavirmes.wordpress.com/2009/03/08/olha-o-selo/
Não é vírus!
Espero que goste...

alex777 disse...

Muito elucidativo o estudo referente ao texto de João 20:3,10, visto que recentemente presenciei um sermão justamente endossando tal aplicação baseada na tradição judaica e fiquei logo pensando qual seria o fundamento para tal. Como li esta explicação,não necessitarei despender esforços exessivos, para defender a compreensão corerta do texto, já que esse estudo proporciona uma compreensão melhor a partir do esstudo do grego.

Pr. Izaías disse...

Prezado Clacir
foi muito ler seu conteúdo sobre o significdo do lença de Jesus deixado à parte. Tirou minhas dúvidas.
Por um acaso você não poderia me mandar outros significados de costumes dos Hebreus? Seria muito útil para as minhas mensagens pastorais.
Fico grato a você. Deus lhe abençoe muito
Izaias Barros

Amoramon disse...

Todos esses comentários sobre os lençois e o lenço foram muito interessantes para mim. Eu nunca havia atentado para os detalhes que poderiam significar a disposição deles. Porém ocorreu-me o seguinte:
- Quem pode garantir que foi o próprio Jesus a dispor os lençóis e o lenço nas posições onde foram encontrados?
- Estas ações poderam ter sdo realizdas pelos anjos que o assistiram; ou não poderia?

Clacir Virmes Junior disse...

Realmente, Francisco. Biblicamente, não podemos afirmar categoricamente que foi Jesus quem dispôs os lençóis e o lenço em Sua tumba. O texto deixa a questão em aberto. Particularmente, creio que foi o próprio Senhor Jesus quem o fez.

Sabrina disse...

Nossa, muuuito obrigado.
Minha professora passou um trabalho e você me explicou tudo o que eu precisava entender. (:

Manoel Bezerra disse...

Meu caro,a sua interpretação do texto original, foi muito boa e muito esclarecedor para todos que gostão de analisar as escrituras, que te abençoe. Manoel Bezerra.

Luís Carlos disse...

Achei muito intressante a exegese do texto, mas fiquei pensando sobre o caminho mais natural do desfecho final pois o texto trata e está fincado na questão das vestes mortuária de Jesus. Tendo Ele na cruz dito nas palavras finais "tudo está consumado" será que um costume ou tradição da nação judaica poderia dar conotação escatológica ao texto canônico original?
Pr. Luís Carlos

Clacir Virmes Junior disse...

Eis a questão. Não pude encontrar qualquer vestígio do alegado costume judaico. Penso que não há nenhum elemento externo que possa ser sobreposto ao texto que lhe dê qualquer conotação escatológica, exceto o fato de que a ressurreição de Cristo garante a futura ressurreição dos salvos.

Jonas disse...

Clacir boa tarde, queria paraleliza-lo pelo comentario, que me tirou algumas duvidas, mas gostaria de saber se vc, conhece algum livro que relata essa tradição? se tiver por favor me indique. Desde já agradeço. jonasdjesus@ig.com.br

Clacir Virmes Junior disse...

Conforme disse no próprio corpo da postagem e em resposta ao comentário do Pr. Luís Carlos, não pude encontrar uma única referência a esse costume judaico.

Diêgo disse...

"Ordem e perfeição se manifestam em toda Sua Obra". Creio que mais impressionante do que a "ordem" ou "perfeição" em questão, foi o zelo para com o trabalho realizado (o de envolver seu corpo com vestes mortuárias) por aqueles que o amavam. Jesus jamais faz pouco caso do trabalho que realizamos para Ele, por menor que esse possa parecer!
Pelo contrário: dá tanto valor ao nosso trabalho na Obra, que as coisas mais simples (como vestes mortuárias para alguém, agora, vivo) têm valor. Imaginem quanto valor Ele deve dar ao nosso trabalho de propagar sua palavra?!
Clacir, parabéns!

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