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terça-feira, 31 de março de 2009

Reflexões sobre Mateus 5:3

A palavra de Deus é um tesouro infindável de verdades e refrigérios vindos diretamente do trono celestial. Mesmo “sem querer,” você acaba descobrindo gemas de valor inestimável.

Preparando minhas aulas de monitoria para a disciplina de Grego I, me deparei com o estudo de uma das bem aventuranças, conforme o registro de Mateus, em especial a primeira (Mateus 5:3): “Bem-aventurados os humildes de espírito, porque deles é o reino dos céus” (Almeida Revista e Atualizada - ARA). Com pouca variação, a Almeida Revista e Corrigida (ARC) diz: “Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o Reino dos céus.” Em grego, o texto assim versa: “Μακάριοι οἱ πτωχοί τῷ πνεύματι, ὅτι αὐτῶν ἐστιν ἡ βασιλέια τῶν ουρανῶν” (Makarioi hoi ptōchoipneumati, hoti autōn estin hē basiléia tōn ouranōn). Para entendermos melhor este verso, vamos analisar cada palavra e/ou expressão, com o objetivo de entender melhor o quadro completo dessa única bem-aventurança e ver o quanto podemos extrair de um único “dito” (λόγιον) do Senhor.

Felizes

A palavra traduzida por bem-aventurados é μακάριοι que significa, literalmente, felizes ou alegres.[1] Muitos comentaristas chamam o Sermão da Montanha como o Discurso da Ética do Reino, ou seja, como os súditos do reino que Cristo estava instaurando na terra deveriam se comportar. Outros, de que esse discurso postula os direitos e deveres do reino celestial.[2] Seja como for, interessante é notar que o objetivo das máximas no discurso ético/proclamação legal de Jesus na montanha é a felicidade do homem. Quase poderíamos entender cada bem-aventurança com a frase: “se você quer ser feliz, então...” Esse é o supremo objetivo das ações de Deus. Seu supremo desejo é trazer felicidade duradoura às suas criaturas.

Pobres

Apesar da ARA traduzir οἱ πτωχοί como “humildes,” o estrito sentido da palavra é “pobre.” Πτοχός é a palavra clássica no Novo Testamento para pobre, destituído de bens, pedinte, miserável.[3] Para termos noção de quão profunda é essa palavra, lembremos a condição de Lázaro na parábola contada por Jesus e registrada em Lucas 16:19-31. Lemos nos versos 20 e 21: “Havia também certo mendigo (πτοχός), chamado Lázaro, coberto de chagas, que jazia à porta daquele; e desejava alimentar-se das migalhas que caíam da mesa do rico; e até os cães vinham lamber-lhe as úlceras.”[4] Talvez, suas chagas se devessem à sua precária condição de vida. Tão miserável era ela, que até as migalhas serviam como alimento se as pudesse conseguir. Esse é o pobre de Mateus 5:3 – o completamente destituído de qualquer coisa material.

No Espírito

Contudo, πτοχός está ligado a outra expressão: τῷ πνεύματι. Tanto a ARA como a ARC traduzem a expressão como “de espírito.” Infelizmente, essa tradução não expressa o real sentido do original. Τῷ πνεύματι se encontra no dativo singular. Segundo Rega e Bergmann, a forma do caso dativo pode expressar o caso instrumental e o caso locativo.[5] Em outras palavras, a expressão pode ser traduzida como “para o espírito” (dativo), “com o espírito” (instrumental), ou “no espírito,” mas não como “de espírito,” o que configuraria o caso genitivo. Dentre estas três opções, a que melhor se encaixa é o dativo locativo (“no espírito”).[6] Para ser mais exato, este é um dativo de referência onde a expressão no dativo “é usad[a] para modificar um substantivo por relacioná-lo a algum outro.”[7]

A primeira lição no estudo da expressão “felizes os pobres no espírito” é que não são felizes “os pobres de espírito.” Quando falamos de uma pessoa “pobre de espírito,” falamos de uma pessoa sem ideais, sem nobreza, sem conteúdo, que se contenta com pouco, que se faz de vítima. Esse não é o tipo de pessoa que é feliz. Felizes são os pobres “no espírito.” Mas, que espírito?

Existem 19 ocorrências da palavra espírito (πνεύμα, -ατος, τό) no livro de Mateus. Normalmente, quando o evangelista fala sobre o Espírito Santo, ele qualifica espírito com o adjetivo ἄγιος (hagios), “santo” (1:18; 1:20; 3:11;12:32). Se não o faz, ou usa a expressão θεοῦ (theou), “de deus” (3:16; 12:28; 28:19) ou πατρός (patros), “do pai” (10:20). Noutras vezes, a referência ao Espírito Santo é feita apenas pela palavra espírito, mas ou contexto indica que é dele que se fala (4:1; 12:31) ou Mateus faz uma citação do Antigo Testamento, onde a referência ao Espírito Santo é clara (12:18).

Mateus também faz referência aos “espíritos” de demônios. Para qualificar tal espírito, ele usa o adjetivo ακάθαρτός (akarthatos), “imundos” (10:1; 12:43). A palavra “espírito” sozinha para indicar os demônios aparece em Mateus 8:16 e 12:45, onde a indicação é clara pelo contexto.

Sobraram três referências com a palavra “espírito”. Em Mateus 26:41 diz: “Vigiai e orai, para que não entreis em tentação; o espírito, na verdade, está pronto, mas a carne é fraca” (ARA). Aqui, em sua exortação para que os discípulos permaneçam com Ele em oração durante a agonia do Getsêmani, Jesus fala sobre os discípulos em termos de “espírito” e “carne,” expressões tais que ecoam a discussão de Paulo em Romanos 7:15-8:6. Assim, “espírito” nessa passagem significa a mente, o homem interior.

Em Mateus 27:50, é-nos dito que Jesus entregou o “espírito,” falando sobre sua morte vicária em nosso favor. “Entregar o espírito” pode significar tanto “expirou,” lembrando o conceito hebraico com relação ao estado dos mortos (cf. Salmo 146:4) como “entregou a vida.” Assim, “espírito” aqui se refere a pessoa de Jesus, assim como Mateus 26:41 se refere às “pessoas” dos discípulos.

A última referência à palavra “espírito” é a bem-aventurança de Mateus 5:3. Levando em conta o estudo que até aqui fizemos, vemos que Mateus usa a palavra “espírito” de três maneiras: a) para se referir ao Espírito Santo; b) para se referir aos demônios; e c) para se referir às pessoas. Em Mateus 5:3, a expressão οἱ πτωχοί τῷ πνεύματι significa, portanto, aqueles que são pobres em si mesmos, que não vêem a própria pessoa como rica, mas sim como miserável. Em outras palavras, uma pessoa humilde,[8] vazia de si mesma, disposta a ouvir e aprender. Esse tipo de pessoa, não os medíocres (“pobres de espírito”), é que são felizes.

Reino dos Céus

O conceito de “reino dos céus” ou “reino de Deus” é recorrente dentro do evangelho de Mateus. Devido ao espaço e ao escopo desse post, não discutirei toda a teologia mateana sobre esse tema. Contudo, gostaria de fazer uma ou outra consideração sobre a expressão em si.

“Reino dos céus” é a tradução de ἡ βασιλέια τῶν ουρανῶν, que aparece na última parte de Mateus 5:3. O reino (ἡ βασιλέια) está no nominativo. Mas em seguida, temos uma expressão no genitivo plural (τῶν ουρανῶν), “dos céus.” Os casos genitivo e o ablativo têm a mesma forma, contudo funções distintas. O genitivo, primariamente, descreve o substantivo no nominativo. Já o ablativo indica a origem, a procedência. Assim, a expressão “reino dos céus” significa: a) o reino celeste, cuja a qualidade é celeste, ou seja, superior, não terrena; e b) o reino que vem dos céus, que procede dele.

Conclusão

Juntando tudo o que vimos em nosso estudo temos: felizes são os humildes, os vazios de si mesmos, pois destes é o reino superior que Jesus instaurou durante seu ministério terrestre e um dia, em Sua vinda, o reino celeste que Ele trará quando puser fim ao pecado. Àqueles que sentem sua própria necessidade, sua própria indignidade, sua pobreza espiritual, esses são felizes, pois entram no reino da graça, onde Cristo é rei em seus corações, e se preparam dia a dia para em breve se tornarem súditos (em todos os sentidos da palavra) naquele reino que nos está preparado “desde a fundação do mundo” (Mateus 35:34).

“Este reino não é, como esperavam os ouvintes de Cristo, um domínio temporal e terreno. Cristo estava a abrir aos homens o reino espiritual de Seu amor, Sua graça, Sua justiça. A insígnia do reino do Messias distingue-se pela imagem do Filho do homem. Seus súditos são os humildes de espírito, os mansos, os perseguidos por causa da justiça. Deles é o reino dos Céus. [...] Todos os que têm a intuição de sua profunda pobreza de alma e vêem que em si mesmos nada possuem de bom, encontrarão justiça e força olhando a Jesus.”[9]

[1] James Strong, Léxico Hebraico, Aramaico e Grego de Strong (Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 2005), H8679; Johannes P. Louw e Eugene Albert Nida, Greek-English Lexicon of the New Testament: Based on Semantic Domains, 2nd ed. (New York: United Bible Societies, 1996), 2:155.

[2] The Seventh-day Adventist Bible Commentary, ed. Francis D. Nichol (Hagerstown: Review and Herald Publishing Association, 1978), 5:324.

[3] Spiros Zodhiates, The Complete Word Study Dictionary: New Testament (Chattanooga, TN: AMG Publishers, 1993), G4434.

[4] Grifo acrescentado.

[5] Lourenço Stelio Rega e Johannes Bergmann, Noções do Grego Bíblico: Gramática Fundamental (São Paulo: Vida Nova, 2004), 67-70.

[6] William Sanford Lasor, Gramática Sintática do Grego do Novo Testamento, trad. Rubens Paes, 2 ed. (São Paulo: Vida Nova, 2002), 97.

[7] Ibid., 97 e 98.

[8] Apesar de a ARA traduzir o verso como “humildes de espírito,” isso não reflete o termo original. A expressão toda (“pobres no espírito”) é que pode ter a equivalência de “humildes,” não a palavra isolada.

[9] Ellen G. White, O Maior Discurso de Cristo, trad. Isolina A. Waldvogel, 15 ed. (Tatuí: Casa Publicadora Brasileira, 2008), 8.

domingo, 22 de março de 2009

Excerto sobre Jóias

De vez em quando, como cristãos, nos deparamos com o assunto do uso de jóias e adornos. Nos últimos dias, tenho visto algumas discussões na internet, mesmo em meio aos cristãos adventistas. Posto aqui uma tradução livre de alguns parágrafos do Handbook of Seventh-Day Adventist Theology [Manual de Teologia Adventista do Sétimo Dia] sobre a questão do uso de jóias por parte dos cristãos. Esse excerto faz parte do capítulo intitulado Christian Lifestyle and Behavior [Estilo de Vida e Comportamento Cristãos], escrito por Miroslav M. Kiš, que na época da publicação era professor de ética na Andrews University. Penso que eles resumem bem a conclusão que sustento hoje sobre o assunto e espero que ajude a um melhor entendimento da posição cristã adventista sobre o assunto.

 

2. Questões em Padrões de Adorno

a. Jóias. A posição cristã sobre ornamentação pessoal é um assunto particular. Enquanto muitos cristãos hoje vêem pouca ou nenhuma objeção no uso de jóias, a instrução bíblica afasta-se dessa prática.

(1) Princípios gerais. Muitos princípios cristãos que governam a decisão do cristão quanto à ornamentação pessoal já foram mencionados. Aqueles que governam a responsabilidade social – negação do eu, identificação, e sacrifício [...] –  assim como aqueles relacionados a mordomia cristã [...]. De primeira importância são os princípios que governam em questão de aparência [...]. Um cristão deve viver uma vida simples, livre de ostentação, gasto desnecessário, e qualquer espírito de competição. Em meio a uma sociedade que coloca grande importância para a aparência exterior, o cristão deve cultivar o que Pedro chama de ‘incorruptível trajo de um espírito manso e tranqüilo’ (1 Pedro 3:4).

“A auto-estima de um cristão tem sua origem no fato de que os seres humanos foram criados à imagem de Deus (Gênesis 1:26, 27). Eles não precisam depender dos embelezamentos exteriores para serem dignos. No Salmo 8:4–9 Davi atribui sua auto-estima à Criação. Deus tem dado a cada ser humano dons e talentos únicos (Mateus 25:14–29). Mas no fim, e mais importante, todos os seres humanos são preciosos porque todos foram comprados por alto preço, maior do que metal e pedras preciosas (1 Coríntios 6:20). Dado que somos de tão inestimável valor que o Filho de Deus entregou Sua vida por nós, ornamentação exterior não pode somar à nossa dignidade pessoal.

(2) Modelos normativos. Alguns declaram quem em passagens como Salmo 45:9; Isaias 61:10; Ezequiel 16:11–13; e Apocalipse 21:2, adorno e jóias são aceitos como normas bíblicas, e que injunções como 1 Timóteo 2:9 e 1 Peter 3:3, 4 devem ser consideradas excepcionais. Essa contensão precisa ser explorada.

“Num esforço para entender o uso de adorno na Bíblia, devemos manter em mente as várias formas de adorno e os diferentes propósitos e intenções que motivaram seu uso. A beleza das vestimentas do sumo sacerdote eram pesadamente adornadas e usavam ouro e pedras preciosas. Doze jóias em seu peitoral, por exemplo, simbolizavam as doze tribos de Israel, e duas pedras sobre seus ombros comunicavam a aprovação ou desaprovação de Deus. Um estudo cuidadoso de sua tiara confirma que propósitos simbólicos e litúrgicos tomaram precedência sobre a estética (Êxodo 28).

“O adorno da noiva na Bíblia inclui jóias e metais preciosos. Ser bela ao seu noivo era o maior propósito dessa ornamentação. Não era tanto uma exibição de riquezas ou um pretexto para atrair a atenção de outros homens, mas uma tentativa de ser agradável ao amado. Assim a Nova Jerusalém em Apocalipse 21:2 é ‘adornada para seu esposo.’ Esse tipo de embelezamento é diferente em espírito e intenção do adorno moderno com ouro e jóias.

“Em Ezequiel 16:11–13, Deus mesmo adorna a jovem mulher. Muitos comentaristas nos lembram que a Escritura usa as formas de pensamento e imagens de seu tempo para ilustrar um ponto ou ensinar uma importante verdade, mesmo quando essa imagem possa não ser digna de imitação ou compatível para ser aplicada por seu valor aparente (veja Oséias 1:2, 3; Lucas 16:19–31). Além disso, toda a cena é uma metáfora. A criança que sob o cuidado de Deus cresce para ser uma linda noiva representa Israel, Seu povo, tal qual a noiva de Apocalipse está para a Nova Jerusalém, Sua igreja. Se a pessoa é simbólica, o adorno e as jóias carregam significado simbólico também. A parábola representa o milagre da redenção  pela qual a feiúra do pecado e a desfiguração de nosso caráter caído é redimido. Somos vestidos com linho fino (Apocalipse 19:8) e adornados com o que é precioso aos olhos de Deus, o ouro de Apocalipse 3:18.

“Enquanto é verdade que a Bíblia reporta várias referências do uso de jóias nas quais não parece haver condenação (Rebeca em Gênesis 24:30; José em Gênesis 41:42; e o filho pródigo em Lucas 15:22), o uso de jóias também é associado com mulheres ímpias (Jezabel em 2 Reis 9:30; as filhas rebeldes de Israel em Isaias 3:16–24; e a prostituta de Apocalispe 17:4). Além disso, em duas claras referências, as jóias são removidas em tempo de renovação espiritual (veja Gênesis 35:2, 4; Êxodo 33:5, 6). Certamente o conselho inspirado por Pedro é válido: ‘Não seja o adorno . . . o que é exterior . . . seja, porém, . . .o incorruptível trajo de um espírito manso e tranqüilo’ (1 Pedro 3:3, 4).

(3) Argumento Adventista do Sétimo Dia. Os adventistas do sétimo dia se abstém da exibição de jóias porque: Cremos no Deus Criador, que cuida de Sua criação e é digno de nossa confiança. Sustentamos que nossa missão é demonstrar nossa total dependência dEle e que a menor dependência das valiosas possessões de ornamentos perecíveis comprometeriam nosso testemunho (Mateus 6:19–21, 25, 26). Somos discípulos do humilde e modesto Mestre. Somos felizes por ser como nosso Mestre em humildade e simplicidade (João 15:18–20). Valorizamos a beleza interior e lutamos para resistir a manipulação da propaganda e a influência de nossa sociedade. Nos preocupamos com as necessidades dos outros, crianças sem cuidados ideais, idosos sem ninguém para amá-los e sustentá-los. Essa preocupação demanda simplicidade de vida (Mateus. 25:31–46). ‘O alcance global da igreja clama por mais e mais fundos. Como seguidores de Jesus, devemos fazer o que podemos onde estamos (Johnsson 10).’” [1]

[1] Raoul Dederen (ed), Handbook of Seventh-Day Adventist Theology (Hagerstown, MD: Review and Herald Publishing Association, 2001), 707 e 708.

sexta-feira, 20 de março de 2009

Indicação de Livro: Teologia para Amadores

Bibliografia: Mcgrath, Alister. Teologia para Amadores. Traduzido por Rachel Vieira Belo de Azevedo. São Paulo, SP: Mundo Cristão, 2008.

Sinopse: “Se todos os cristãos fazem teologia’, por que poucos a compreendem?
“A extensão e a profundidade da teologia podem assustar aqueles que não são do “ramo”, aqueles que não se dedicam a embrenhar-se no vasto campo teológico. Por isso, Alister McGrath, que é do “ramo” e considerado um dos maiores teólogos da atualidade, decidiu aventurar-se numa tarefa ainda mais difícil: falar com simplicidade do saber teológico.
“Em Teologia para amadores, McGrath mostra por que é um dos teólogos mais lidos do planeta. Por saber tratar as coisas de Deus com naturalidade singular, nosso professor de Oxford cativa o leitor menos habituado às infindáveis questões teológicas por sua paixão e seu deslumbramento com o Criador, e seu exemplar didatismo. Antes ateu, Alister apresenta a teologia partindo do princípio de que você a desconhece.
“Se você já tentou entender e não conseguiu, recomece. Você está em boa companhia” (Fonte: Mundo Cristão).

Comentário: O livro possui 69 páginas: uma “sentada” e ele está lido. Sua linguagem é muito acessível e gostosa de ler. Os primeiros cinco capítulos mostram o papel da teologia e como ela amplia e/ou resume os grandes temas da fé cristã. Além disso, mostra como a teologia ajuda em que sejamos mais profundos em nossas convicções e práticas. O restante dos capítulos trata de como a teologia lida com grandes doutrinas do cristianismo, como a Trindade, a Criação, a natureza de Jesus, entre outros. E o último capítulo encerra com um apelo para que não nos esqueçamos que a teologia precisa ajudar a espiritualidade e não atrapalhá-la.

É um excelente livro de iniciação à teologia. Conforme o próprio autor, seu interesse não era dar bases amplas para as grandes questões doutrinárias do cristianismo, mas mostrar que a teologia é uma área que pode e deve ser compreendida por todos e que, como disciplina, ela auxilia no aprofundamento e melhor entendimento da fé. O melhor capítulo é o último sobre a relação entre teologia e espiritualidade. Muitos pensam que a teologia torna a fé árida, mas McGrath mostra o contrário: ela deve regar a fé. Em suma, é um alerta, penso que principalmente para os teólogos e estudantes de teologia, a não dissociarem a espiritualidade dos estudos teológicos. Eles devem estar de mãos dadas, fortalecendo e explicando a maravilhosa fé no Deus Salvador, Jesus Cristo.

quarta-feira, 18 de março de 2009

Indicação de Livro: O Que Estão Fazendo com a Igreja

Bibliografia: Nicodemus, Augustus. O Que Estão Fazendo com a Igreja: Ascensão e Queda do Movimento Evangélico Brasileiro. São Paulo, SP: Mundo Cristão, 2008.

Sinopse: "Desde 2005, três amigos se revezam nos comentários sobre os mais diversos assuntos que se referem à vida da igreja e à sociedade. Em comum, a pena afiada, a identidade reformada e o zelo pela fé cristã. O palco escolhido por Augustus Nicodemus, Mauro Meister e Solano Portela é o blog O tempora, O mores! (Que tempos os nossos! E que costumes), referência à célebre frase de Cícero (106-43 a.C).

"Dentre as centenas de textos postados por eles, Augustus Nicodemus selecionou alguns dos seus para se projetarem além da blogosfera, e assim oferecer suas percepções sobre a igreja evangélica e sobre o que entende ser a ascensão e queda do movimento evangélico brasileiro.

"Liberais, neo-ortodoxos, libertinos e neopentecostais, não escapam da escrita certeira de Augustus, cujo objetivo com a publicação de O que estão fazendo com a igreja vai muito além da simples (e saudável) polêmica. Seu desejo é fortalecer os que insistem em seguir a fé bíblica conforme entendida pelo cristianismo histórico. Sem esquecer as mazelas de conservadores, fundamentalistas e neopuritanos, Augustus traça um panorama do complexo cenário evangélico com a firmeza que lhe é peculiar" (Fonte: Mundo Cristão).

Comentário: O livro é dividido em 6 partes, cada uma focalizando um grupo ou grupos diferentes. No primeiro capítulo, na primeira parte, o autor faz uma análise sobre as causas da crise no evangelicalismo brasileiro. Sua análise é realmente um raio-x do que acontece na maioria das denominações (infelizmente, também com a minha).

A segunda parte analisa o liberalismo que tem feito suas devastadoras incursões dentro do cristianismo como um todo. O autor analisa questões como a autoridade da Bíblia, o valor da experiência, o relacionamento entre ciência e religião, o esfriamento da fé, o pluralismo religioso, entre outras. Sua abordagem é muito sincera e verdadeira, e, em muitos momentos, abre nossos olhos para a raíz dos problemas que enfrentamos no dia-a-dia da vida da igreja.

A terceira parte mostra o neo-ortodoxismo. Não sei se esse foi o único objetivo dessa seção, mas eu aprendi como o que parece ser uma volta à ortodoxia pode na verdade ser um tipo de liberalismo disfarçado.

A quarta parte fala sobre os libertinos e mostra como a palavra liberdade tem sido distorcida para significar libertinagem. O autor fala sobre a questão do casamento e da promiscuidade e como conceitos mundanos tem se infiltrado na mente dos cristãos.

A quinta parte fala sobre o movimento pentecostal. Pra mim, o melhor capítulo nessa seção é o primeiro (número 24 no livro) que mostra como a ênfase no avivamento suplantou o conceito e o processo de santificação na vida dos cristãos.

A última parte fala dos fundamentalistas, reformados e puritanos. Sendo coerente, o dr. Augustus Nicodemus tem uma palavra também para os seus irmãos na fé. Penso que essa seção mostra muito o viés pastoral do autor e seu cuidado para com a igreja que ele ama.

Acabei recentemente de ler esse livro. Apesar de não concordar com tudo (conforme o conselho de Paulo em 1 Tessalonicenses 5:21) os princípios e questões abordados pelo Dr. Nicodemus são extremamente valiosos. Todos os interessados em saber "o que estão fazendo com a igreja" devem ler esse livro. Em especial, gostaria de ressaltar um dos conceitos mais verdadeiros que encontrei na leitura do livro: o de que para ser inclusivo e/ou progressista não é necessário abrir mão da identidade. Como igreja, muitas vezes, na ânsia de fazer a diferença, deixamos de ser quem somos para atrair aqueles que queremos trazer para a comunhão. É a identidade que nos torna únicos. Ninguém é obrigado a esposar determinado conjunto de verdades e posições. Cada pessoa é livre pra escolher. Não é alterando a essência de algo que o tornaremos mais aprazível para os outros. São as distinções que nos tornam únicos.

terça-feira, 10 de março de 2009

Transliteração II

Visando também a transliteração do hebraico em meu blog, decidi, a exemplo da língua grega, usar a transliteração proposta pela Society of Biblical Literature (SBL), com algumas adaptações.[1] Para indicar a sílaba tônica, usarei o negrito, já que a transliteração da SBL não provê mecanismos para tal. Segue abaixo o padrão:

Consoantes

א ʾ=

ב = b; v [2]

ג = g; gh [2]

ד = d; dh [2]

ה = h

ו = w

ז = z

ח = h

ט = t

י = y

כ/ך = k; kh [2]

ל = l

מ/ם = m

נ/ן = n

ס = s

ע = ʿ

פ/ף = p; f [2]

צ/ץ = ts

ק = q

ר = r

ש = s

ֺש = sh

ת = t; th [2]

Vogais[3]

ַ = a

ָ = a

ֶ = e

ֵ = e

ִ = i

ָ = o

ׂ = o

ֻ = u

ֱ = e

ֲ = a

ֳ = o

ְ = ĕ

[1] Patrick H. Alexander et al., The SBL Handbook of Style for Ancient Near Eastern, Biblical, and Early Chirstian Studies (Peabody: Hendrickson Publishers, 1999), 28.

[2] Consoantes BeGaDKeFaT

[3] Para efeito de transliteração, não faremos diferença entre vogais longas e breves.

domingo, 1 de março de 2009

Lençóis e Lenço

Sei que para o pesquisador assíduo, interessado e reverente, a Palavra de Deus sempre trará novos tesouros e novas preciosidades virão à tona para alimentar e nutrir o Seu povo. Contudo, algumas vezes, mesmo o estudante mais bem intencionado pode cair na armadilha de interpretar um texto incorretamente e extrair dele lições ou temas os quais absolutamente ele não advoga ou cobre.

Esse me parece ser o caso de uma explicação/aplicação feita sobre o texto de João 20:7, que fala sobre a disposição das vestes mortuárias de Jesus após Sua ressurreição, a qual li recentemente. O texto bíblico assim reza (segundo a Almeida Revista e Atualizada): “e o lenço que estivera sobre a cabeça de Jesus, e que não estava com os lençóis, mas deixado num lugar à parte.”

Segundo a interpretação dada, os lençóis que envolveram o corpo de Cristo estavam jogados no chão, enquanto o lenço que cobria Sua cabeça estava devidamente dobrado em outro lugar. Tal disposição teria um significado especial dentro da tradição judaica. De acordo com a discussão feita, antes de uma refeição, o servo colocava a mesa para seu senhor com todas as coisas em ordem. Então, o senhor vinha, se assentava à mesa e iniciava a refeição, enquanto o servo ficava à parte, sem ser visto. Se o senhor terminava de comer e estava satisfeito, ele amassava o quardanapo/lenço, jogava-o sobre a mesa e saía, indicando ao servo que poderia retirar a mesa. A mensagem enviada era: terminei meu trabalho.

Contudo, se o senhor se levantasse e saísse deixando, porém, o guardanapo dobrado, isso era sinal para que o servo ainda não retirasse a mesa. A mensagem enviada era: voltarei para terminar meu trabalho. Assim, o fato do lenço que cobria a cabeça de Cristo estar dobrado significaria, veladamente, um reforço a Sua promessa de voltar pela segunda vez. Seria essa uma possível lição espiritual advinda do texto sagrado? Creio não ser esse o caso.

Por mais bonita que tal interpretação possa soar, ela não se coaduna com o contexto da passagem, principalmente com algumas suposições extraídas, talvez, do “silêncio” sobre a disposição dos lençóis que envolviam o corpo do Salvador em contraposição ao lenço que lhe cobria a cabeça. Gostaria de analisar algumas palavras-chave que, talvez, elucidem para nós o real sentido desta menção de João às vestes mortuárias de Jesus, a qual o Santo Espírito o inspirou a incluir no seu evangelho.

Entendendo o Texto

Para entendermos melhor o contexto da passagem, leiamos João 20, desde o verso 3 até o verso 10 [1]:

3 Saiu, pois, Pedro e o outro discípulo e foram ao sepulcro.

4 Ambos corriam juntos, mas o outro discípulo correu mais depressa do que Pedro e chegou primeiro ao sepulcro;

5 e, abaixando-se, viu os lençóis de linho; todavia, não entrou.

6 Então, Simão Pedro, seguindo-o, chegou e entrou no sepulcro. Ele também viu os lençóis,

7 e o lenço que estivera sobre a cabeça de Jesus, e que não estava com os lençóis, mas deixado num lugar à parte.

8 Então, entrou também o outro discípulo, que chegara primeiro ao sepulcro, e viu, e creu.

9 Pois ainda não tinham compreendido a Escritura, que era necessário ressuscitar ele dentre os mortos.

10 E voltaram os discípulos outra vez para casa.

O contexto da passagem é a corrida de Pedro e João ao túmulo onde o corpo de Cristo houvera sido depositado. João, sendo mais jovem, chegou primeiro, viu os lençóis e parou à porta do sepulcro (vv. 4 e 5). Pedro, mais velho, chegou depois, viu também os lençóis, mas avançou para dentro do recinto (vv. 6 e 7). Depois de algum tempo, João também entrou, viu as mesmas coisas que Pedro, e creu que Jesus ressucitara (v. 8).

Não sei dizer o porquê disso, mas a ARA omite uma palavra do verso 6 e do verso 7. No verso 6, é dito que ele [Pedro] “também viu os lençóis.” Em grego, a frase diz literalmente: “e viu os lençóis colocados” (καὶ θεωρεῖ τὰ ὀθόνια κείμενα). Neste caso, a expressão τὰ ὀθόνια κείμενα (ta othonia keimena) diz que os lençóis estavam dispostos, colocados, não jogados. Inclusive, segundo o Analytical Lexicon of the Greek New Testament, o verbo κείμαι (keimai), que na expressão aparece no particípio presente passivo plural acusativo neutro (em concordância com e qualificando τὰ ὀθόνια), significa, literalmente, o resultado de colocar algo em algum lugar, com ênfase no sentido espacial [2]. Em outras palavras, κείμενα significa colocados espacialmente, dispostos. Ainda, segundo Lidell, o verbo κείμαι, originalmente, significa deitar esticado, reforçando o sentido de que os lençóis estavam dispostos, organizados, esticados e não jogados [3].

No verso 7, é dito que o lenço (σουδάριον) “não estava com os lençóis.” Em grego, a frase diz literalmente: “não com os lençóis colocado” (οὐ μετὰ τῶν ὀθονίῶν κείμενον). Nesse caso κείμενον (keimenon) se refere à σουδάριον (soudarion), ambos no neutro singular, e não à τῶν ὀθονίῶν (tōn othoniōn), genitivo plural. O que está sendo dito é que ao invés de estar colocado espacialmente, o lenço está ἐντετυλιγμένον (entetyligmenon), dobrado, em outro lugar. Assim, João está contrapondo o lugar onde os lençóis e o lenço estão, mais do que a sua disposição. Enquanto os lençóis estão dispostos, organizados de um lado, o lenço está em outro lugar dobrado. Apesar de não podermos, taxativamente, afirmar, biblicamente, que os lençóis estavam dobrados, podemos com segurança afirmar que eles estavam, no mínimo, organizados e não jogados.

Assim sendo, parece temerário julgar a interpretação dada anteriormente como válida. Além de extrair do texto uma informação que lá não se encontra (o suposto fato de os lençóis estarem jogados enquanto o lenço estava dobrado), o contexto não suporta tal explicação. Se João tivesse dado ênfase à esse detalhe no contexto de uma refeição, como a Santa Ceia por exemplo, tal aplicação teria sua validade. Mas o texto trata da ressurreição, de uma tumba, das vestes mortuárias de alguém, e não de uma refeição.

Existem duas lições espirituais que podem ser extraídas deste detalhe dos lençóis e dos lenços dado por João, e, é claro, não devem ser as únicas. A primeira vem do comentário de Ellen G. White sobre o texto [4]: “Fora o próprio Cristo que colocara com tanto cuidado as roupas com que O sepultaram [...]. Enquanto o anjo do Céu removeu a pedra, o outro entrou no sepulcro e desembaraçou o corpo de Jesus de seu invólucro. Foram, porém, as próprias mãos do Salvador que dobraram cada peça, pondo-as em seu lugar. Ao Seu olhar, que guia semelhantemente a estrela e o átomo, nada há sem importância. Ordem e perfeição se manifestam em toda a Sua obra.” [5]

A segunda lição é que, o fato das vestes mortuárias de Cristo estarem organizadamente dispostas atesta sua ressurreição, não a história do suposto roubo do seu corpo da tumba. Se se tratasse de um roubo, os ladrões não teriam se importado de organizar suas vestes. Isso seria perda de tempo. Contudo, as vestes de Cristo cuidadosamente dispostas sob a pedra onde jazera Seu corpo demonstra a realidade de Sua ressurreição corpórea e nos dá a certeza de Sua vitória sobre a morte.

Conclusão

Como afirmei no inicio dessa postagem, sempre que nos dedicamos ao estudo das Sagradas Escrituras, novos lampejos e novas verdades podem e devem ser o resultado de nossos esforços. Porém, precisamos ser escrupulosos com nossas conclusões; mais ainda, com nossos métodos de interpretação.

Cristo foi explícito quanto à realidade de Sua segunda vinda: na verdade, Ele foi explícito sobre a maior parte das coisas. Apenas para citar uma de Suas muitas referências a esse evento, lembremo-nos de Sua promessa em João 14:1-3: “Não se turbe o vosso coração; credes em Deus, crede também em mim. Na casa de meu Pai há muitas moradas. Se assim não fora, eu vo-lo teria dito. Pois vou preparar-vos lugar. E, quando eu for e vos preparar lugar, voltarei e vos receberei para mim mesmo, para que, onde eu estou, estejais vós também.

[1] Sociedade Bíblica do Brasil, Almeida Revista e Atualizada (Sociedade Bíblica do Brasil, 1993; 2005), Jo 20:3-10.

[2] Timothy Friberg et al., vol. 4, Analytical Lexicon of the Greek New Testament (Baker's Greek New Testament Library, Grand Rapids, Mich.: Baker Books, 2000), 227.

[3] H.G. Liddell, A Lexicon : Abridged from Liddell and Scott's Greek-English Lexicon (Oak Harbor, WA: Logos Research Systems, Inc., 1996), 425.

[4] Como estudante da Bíblia e cristão adventista do sétimo dia, creio na continuidade dos dons espirituais na Igreja até a volta de Jesus Cristo. Creio que um destes dons é o dom de profecia e creio que ele foi dado à igreja remanescente como sinal distintivo. Por isso, estou incluindo o comentário da escritora Ellen G. White, o que, de maneira alguma, vai de encontro às informações extraídas primariamente do texto canônico.

[5] Ellen G. White, O Desejado de Todas as Nações, trad. Isolina A. Waldvogel, 22 ed. (Tatuí: Casa Publicadora Brasileira, 2004), 789.

Transliteração

Visando a normalização da transliteração do grego em meu blog, decidi seguir o sistema sugerido pela Society of Biblical Literature (SBL).[1] Para indicar a sílaba tônica, usarei o negrito, já que a transliteração da SBL não provê mecanismos para tal. Segue abaixo o padrão:

α = a

β = b

γ = g/n[2]

δ = d

ε = e

ζ = z

η = ē

θ = th

ι = i

κ = k

λ = l

μ = m

ν = n

ξ = x

ο = o

π = p

ρ = r/rh[3]

σ/ς = s

τ = t

υ = y/u[4]

φ = ph

χ = ch

ψ = ps

ω = ō

= h

[1] Patrick H. Alexander et al., The SBL Handbook of Style for Ancient Near Eastern, Biblical, and Early Chirstian Studies (Peabody: Hendrickson Publishers, 1999), 29.
[2] n antes de γ, κ, ξ e χ.
[3] rh com aspiração forte.
[4] u nos ditongos.

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